Há muitas formas de enxergar o mundo do trabalho e como ele está evoluindo. Uma delas é pelas lentes das ciências comportamentais.

Uma relevante conceituação, citada por Daniel Pink em seu livro Motivação 3.0, divide as atividades que desempenhamos na escola e na vida profissional em duas categorias: “algorítmica” e “heurística”.

Tarefas algorítmicas são aquelas que obedecem a um conjunto de instruções definidas e sequenciais até chegarem a uma conclusão.

Resumindo, tal qual nos computadores, há um algoritmo, um conjunto de regras para executá-las.

Já as tarefas heurísticas correspondem ao oposto disso. Não existe um roteiro predefinido para a execução da atividade. Por esse motivo, é preciso explorar e testar possibilidades até chegar a uma solução original. O produto final é algo inédito.

A simplificação e a especialização de tarefas são fundamentos da administração científica da era industrial. A divisão do trabalho no paradigma industrial é basicamente algorítmica. Esse arranjo trouxe ganhos de produtividade e eficiência para as empresas dos tempos pré-internet.

Ocorre que o barateamento das tecnologias da informação e comunicação e o advento da internet comercial, no fim do século 20, deram início à superação desse paradigma. Já na década de 1990, os mercados começaram a sentir os impactos da reengenharia e da terceirização em massa de empregos e atividades para países que ofereciam custos de produção impossíveis de serem praticados nos países mais ricos, além dos impactos exponenciais da automação de atividades profissionais.

Algumas reflexões pontuais (e nada exaustivas) que considero pertinentes

O desenvolvimento exponencial da capacidade computacional tende a tornar inviável o surgimento de novas vagas de trabalho algorítmico.

A mesma capacidade computacional já consegue emular tarefas heurísticas.

Sob o ponto de vista da gestão, muitas empresas ainda utilizam estruturas de comando, controle e incentivo concebidas para o trabalho algorítmico e não entendem por que elas não funcionam no contexto de força de trabalho contratada para realizar atividades heurísticas.

As recompensas básicas da era industrial – salários, benefícios, plano de carreira, ambiente físico agradável, entre outras – passam a ser apenas infraestrutura e devem ser adequadas e suficientes. A partir delas, são construídas as condições para que uma organização seja um ambiente propício à satisfação produzida pela motivação intrínseca de cada colaborador e à maximização de propósitos comuns. Os dois são aspectos essenciais para o sucesso do trabalho intelectual e criativo.

Por fim, as empresas da era pós-digital se caracterizam por arranjos mais horizontais. Tais estruturas pressupõem alto grau de autogestão por parte de todos os colaboradores.