Sempre admirei os atletas e artistas que sabem a hora de dar um ponto-final em suas carreiras e iniciar uma nova etapa. Aqueles que olham para os anos de trabalho árduo e percebem o momento exato de encerrar um ciclo, descansar ou escrever uma nova história.

Admiro a alquimia que existe em vislumbrar o momento certo de “parar no auge”.

Aproveito essa reflexão inicial para traçar um paralelo com um aspecto bem mais corriqueiro e trivial – porém não menos importante – na vida de quem se aventura a trabalhar de forma autônoma.

Quando estamos no papel de funcionário, vivendo a rotina de uma empresa estabelecida, o término de um dia de trabalho está relacionado a n fatores. Em sua maioria, fatores externos.

Existe o ponto eletrônico, o término de um relatório, aquela reunião que ainda não terminou, o e-mail que deve ser encaminhado ao chefe ainda hoje, etc. Tudo se submete a um fluxo de decisões conjuntas que deixa claro quando o expediente terminou.

Esses fatores externos, que tão bem delimitam o momento de encerrar a jornada, desaparecem imediatamente quando nasce um empreendedor ou um trabalhador autônomo.

É uma decisão solitária e um dos primeiros impactos a serem equacionados que percebi quando comecei a empreender.

Minha tendência a continuar sendo workaholic foi logo dominando a cena. Se eu deixar, sempre haverá um parágrafo a ser escrito, uma palestra para terminar, um e-mail para prospectar um novo cliente, a ligação para um parceiro comercial, um podcast a ser produzido, um novo contrato a ser analisado, etc.

Há também outro fator fundamental: o negócio é meu, e os resultados – bons ou ruins – também.

Por motivos óbvios, isso tem um lado positivo e necessário. O início de qualquer negócio requer doses extras de foco e entrega. Não tem nada de errado em trabalhar longas horas para tirar um projeto do papel. O erro mora quando essa rotina de trabalho duro se converte em desequilíbrio. Quando os demais aspectos da vida ficam negligenciados. Família, amigos, sono, alimentação, esporte e demais cuidados com a saúde são essenciais, inclusive para gerar resultados profissionais de longo prazo e sustentáveis.

Assumo essa posição com a experiência de quem já sentiu na própria saúde as consequências do desequilíbrio.

Haverá sempre algo novo a ser criado e, diante de um mar infinito de possibilidades, é fácil nunca dar por encerrado o dia de trabalho.

Percebi ao longo desses dois anos que terei que conviver com a sensação constante de que há mais a ser feito e que é preciso desenvolver a sabedoria de dizer: “Ok, por hoje chega!”. O mesmo vale para os fins de semana (que não necessariamente ocorrem mais aos sábados e domingos) e para os dias de folga que devem ser curtidos sem culpa.

Estou aprendendo a sentir a satisfação de descansar e voltar com tudo no dia seguinte para novos desafios que não são mais impostos por terceiros.

São os meus desafios, e isso muda tudo.

Outro ponto fundamental é saber reconhecer e celebrar as pequenas vitórias. Pequenos avanços devem ser comemorados. Tal postura diminui a ansiedade em relação ao muito que sempre estará por fazer.

Creio que, empreendendo e trabalhando de forma autônoma nesta sociedade hiperconectada, com informações e possibilidades infinitas, não me darei mais ao luxo de dizer que algo está terminado.

Não há nenhum problema nisso. Há sabedoria em redefinir os níveis de conforto com o que está pendente. Há alegria em operar para sempre em modo beta e tentar ser a melhor versão de si mesmo, um dia de cada vez.

No fundo, é sempre sobre curtir a jornada.